sexta-feira, 2 de junho de 2017

Desintegrar


Vem feito trem desgovernado, anunciado pelo salivar. A gente só sabe que tem que ir, qual o fim, mas nem sempre o porquê. Foi assim que eu comecei o meu desintegrar.

Repetidas vezes eu deixei minha vida escapar pelos lábios. Tantas, que o ato de escape já me parecia tal qual bocejar. Comecei a encarar com certa naturalidade deixar que tudo que ingeri se desfizesse ali, bem em frente a mim, a um palmo do salivar.

domingo, 21 de maio de 2017

As pretinhas precisam saber que são lindas.


Eu sou de uma época não muito distante em que cabelo crespo era chamado de “cabelo duro, cabelo ruim, fedorento, uma palha” e derivados. As minhas bonecas eram todas loiras e dos olhos azuis. As atrizes da televisão também eram assim (e ainda são!), em sua maioria. O meu padrão não era veiculado, sabe?

Eu não estava representada nos meios de entretenimento e se eu estava, com certeza era sob nuances emergentes, de pobreza ou de miséria. Havia sempre um sofrimento relacionado ao preto. Uma dificuldade.

domingo, 2 de abril de 2017

Who cares, anyway?


Ser bem articulado, ter boa armadura e maturidade não é sinônimo de vida tranquila. Tem resposta que a gente guarda num cantinho inóspito de nós mesmos e no desespero, a gente vai deixando as preocupações turvarem a visão, tanto que alguém precisa pegar a lanterna e apontar pra a gente a solução.
Decerto, a clareza não vem pra todos. Mas até o mais atento dos homens pode sofrer por dispersão. No fim do dia, todo mundo se precisa um pouco. Empatia é o que falta, dizem no sermão.

Interesses


É tão frágil a atenção nos dias de hoje. Ela tem prazo de validade, dose certa, palavras comedidas e prescrição exata. Você sabe, a minha dedicação termina onde meu interesse acaba.

Há um ego faminto que precisa ser bajulado pelos meus amigos. Se não, pra quê mais se rodear de gente? Eu preciso vender, parecer, atrair e nada mais. E não importa quem feriu ou ficará ferido, contanto que eu pareça feliz no final. Contanto que eu caiba na minha caixa social. Aquele perfil que eu vendi.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Controle


A gente tá entre os enquadros de Adriana e a sonífera ilha de Titãs. No caminho, eu te puxei pelo rádio e segui sua trilha. Eu te queria sozinho, como queria. Eu te cantava meus versos de amor, eu te escrevia poemas abandonada no quarto. Eu te segui com os olhos, eu deslizei o dedo no touch e me senti traída. Eu gravei uns áudios e te culpei. Eu gritei.

Abraçar o mundo


Desde sempre eu ouço minha mãe falar que eu quero abraçar o mundo e que isso era algo impossível, um verdadeiro problema. Ela tem razão, mas isso não me fez parar. Eu precisei tropeçar umas mil vezes para entender que a minha felicidade e o meu sofrimento moram aí.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Falidos


Estamos despedaçando por sentir. A gente tá sempre se convencendo que devemos correr atrás do que complete. A gente se anula, se vê ao meio e espera que alguém chegue e termine o serviço. A gente não acaba nunca, não.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Avessa


Oi, estranhx. Vim dizer que não vou me explicar, nem fugir da responsabilidade. Tudo que eu disse é verdade e você sabe. Tudo que eu senti, eu pus pra fora. Eu não vou remoer isso não. Tem gente demais pra me chamar de louca. Tem gente de menos querendo assumir sua parcela de culpa. Tem multidões achando que quero pertencer. Ninguém sabe os passos que trilhei, as portas que eu fechei e quantos “adeus” eu terei que dar. Só eu. Eu só.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Gerúndio


Trata-se de ato contínuo. Da sensação de já ter passado por isso antes, mas com personagens diferentes. É como uma experiência vivida, mas totalmente reformulada. E que não termina.

Estamos sempre indo. Sempre. Eu procuro escolher quando e onde, mas você só deixa. Estamos sós, estamos lado à lado. Somos uma idéia tola e persistente que caminha.

Te vejo


Tanto tempo, nenhuma certeza. Você tá bem aqui, deitado do meu lado. Tá rindo das besteiras que digo ou leio. Tá quando eu acordo e quando eu me deito. Você é a voz mansa que aquece o meu peito, o silêncio que consola e a escuridão.